'Mulheres Fantásticas': conheça a história da cientista brasileira que criou caneta contra o câncer

  • 29/03/2026
(Foto: Reprodução)
Química brasileira inventa caneta que identifica células de câncer durante cirurgias Uma cientista brasileira desenvolveu uma tecnologia capaz de identificar, em poucos segundos, se um tecido é canceroso ou saudável durante uma cirurgia. A química Lívia Éberlin criou uma “caneta” que analisa moléculas do tecido em tempo real e pode ajudar médicos a tomar decisões mais precisas no tratamento do câncer. No segundo episódio da nova temporada do quadro Mulheres Fantásticas, o Fantástico apresenta a trajetória da pesquisadora e o desenvolvimento da tecnologia. Ideia surgiu após observar limitações em cirurgias A pesquisa começou quando Lívia passou a observar cirurgias e percebeu limitações nos métodos usados para identificar tumores. “Eu fiquei bem chocada com a realização de que os métodos que estavam sendo utilizados eram dezenas de anos antigos, e são demorados, têm erros associados à análise”, afirmou. Lívia Éberlin durante pesquisa em laboratório onde desenvolveu tecnologia para identificar células cancerosas em tempo real Reprodução/TV Globo A partir dessa constatação, ela decidiu criar uma ferramenta que pudesse ser usada diretamente no centro cirúrgico, sem depender de exames demorados. “Foi observando as cirurgias, eu queria desenvolver uma técnica, um dispositivo, que fosse também segurado pelos cirurgiões, pela cirurgiã, e que eles pudessem colocar no tecido, onde eles não sabem, é que é um tecido normal, um tecido de câncer, e fazer a análise molecular em tempo imediato, dentro do paciente, mesmo antes de retirar o tecido.” Caneta “lê” o tecido em tempo real O dispositivo desenvolvido por Lívia tem formato simples, semelhante ao de uma caneta, mas funciona como um equipamento de análise molecular. “A gente coloca na mão e fala, não é uma caneta que escreve, é uma caneta que lê.” Caneta desenvolvida por Lívia Éberlin permite identificar células cancerosas em tempo real durante cirurgias Reprodução/TV Globo Durante o procedimento, o cirurgião encosta a ponta no tecido. Uma gota de água é liberada para extrair moléculas, que são analisadas imediatamente. “Quando o cirurgião segura a caneta, eles tocam no tecido e ativam através desse pedal. E a gente libera uma gotinha de água na pontinha da caneta. Essa água extrai as moléculas do tecido.” “Da mesma forma como a gente usa água para extrair as moléculas do café, daí a gente faz um cafezinho, a gente usa aqui uma gotinha de água para extrair as moléculas do tecido humano.” Caneta usa uma gota de água para extrair moléculas do tecido Reprodução/TV Globo Os dados são processados com inteligência artificial, que compara os padrões moleculares e indica se o tecido é canceroso. “E é por isso que a gente usa a inteligência artificial. A gente usa algoritmos que daí olham essa informação molecular e dá uma resposta de imediato se o tecido é câncer ou normal, baseado nesse perfil molecular.” Desenvolvimento teve erros e resistência O caminho até chegar à versão atual da tecnologia envolveu várias tentativas. “Foram vários protótipos.” Parte do processo contou com o uso de impressão 3D para testar modelos da caneta. No início, a pesquisadora enfrentou dificuldade para obter apoio. “Muitos nãos. Muitos nãos. Eu acho que muitas pessoas acharam que a ideia não iria funcionar, que era algo muito simples, que talvez os cirurgiões não estivessem abertos a uma tecnologia nova.” Com o avanço da pesquisa e a validação dos resultados, a tecnologia passou a ser testada em ambiente hospitalar. “Mais de 400 cirurgias que a gente já fez com uma caneta.” Trajetória inclui desafios na carreira Lívia construiu parte da carreira nos Estados Unidos e relata ter enfrentado dificuldades como mulher brasileira no meio acadêmico. “Uma das grandes dificuldades da minha vida, na minha carreira profissional, foi ser uma mulher brasileira. Eu acho que os profissionais aqui meio que subestimavam a minha capacidade como mulher, como latino-americana.” Ela também descreve episódios de constrangimento. “Um deles falou assim, alguma piada de mulher brasileira ser bonita, de relação ao corpo, etc. E eu me senti assim, completamente, como é que eu falo? Desconfortável.” Tecnologia já é testada em hospitais A caneta já foi utilizada em mais de 400 cirurgias, em casos de câncer de mama, pulmão, cérebro, ovário e pâncreas, principalmente nos Estados Unidos. "É um avanço importante na forma como planejamos essas cirurgias complexas e difíceis. A caneta pode ser útil também após a quimioterapia, ajudando a diferenciar células cancerosas do que é a cicatriz do tratamento", afirmou o cirurgião oncológico Anil Sood. MD Anderson Cancer Center, nos Estados Unidos, é um dos hospitais que testam a caneta desenvolvida por Lívia Éberlin Reprodução/TV Globo Além disso, a tecnologia começou a ser testada no Brasil, em caráter experimental. Um dos locais é o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, onde o dispositivo está sendo usado em cirurgias oncológicas. “Dessas 30 cirurgias que a gente realizou de tireoide e pulmão, as respostas foram muito promissoras”, disse o médico patologista Carlos Ferreira. Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, testa uso da caneta em cirurgias oncológicas Reprodução/TV Globo A Unicamp também participa de testes com a tecnologia, voltados ao diagnóstico de câncer de boca. Objetivo é ampliar uso da tecnologia A pesquisadora afirma que sempre buscou desenvolver soluções com impacto direto na vida das pessoas. “Eu sempre senti que era fazer um impacto e fazer algo que seja inovador e que ajude as pessoas.” Hoje, a equipe trabalha para ampliar o uso da caneta e levar a tecnologia para hospitais em diferentes países. “Tem uma equipe maravilhosa que trabalha comigo, meus alunos, meus pós-doutorandos e nós todos estamos trabalhando dia e noite para trazer a caneta para o máximo de hospitais do mundo.” Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.

FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/03/29/mulheres-fantasticas-conheca-a-historia-da-cientista-brasileira-que-criou-caneta-contra-o-cancer.ghtml


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